Palavras – ou qualquer coisa que traduza você

24 jun

Um abraço, um beijo ou um aperto de mão. Um olhar de desprezo, um sorriso de desdém ou de aprovação. Um gesto. Qualquer coisa, qualquer sinal. Algo que me diga tudo aquilo que você não diz.

Palavras que são guardadas a sete, oito, nove ou dez chaves em um enorme baú de tesouros. Um sim, um não, um talvez, qualquer resposta para o meu ponto de interrogação reluz feito diamante.

Palavras escolhidas. Escolhidas a dedo, como uma fruta madura em meio a uma banca recheada, como o próximo passo. Como se você refletisse por horas sobre qual efeito causariam em mim.

Palavras manipuladas que saem da sua boca nem tão doces e se desfazem em milhares de pensamentos quando chegam aos meus ouvidos. “O que eu ouvi?”

secret

Palavras subentendidas. Palavras que eu digo querendo dizer, e que não digo na esperança que, mesmo assim, você entenda. Palavras que você não diz, e eu tento adivinhar, em vão. Palavras que são guardadas. Palavras, palavras.

Palavras e a minha terrível mania de tentar traduzi-las. Elas nunca me representam, são traidoras. E eu ainda me apego a elas, as considero importantes, senão fundamentais. Minhas, suas, nossas. Palavras que um dia significaram muito mais, e hoje, esquecidas, voltaram a ser apenas palavras.

Não me conquiste, é melhor assim

4 set

Mais uma vez eu estou parada olhando nos teus olhos e pensando no que posso te dizer. Esse é o momento que, em tese, eu deveria te apontar com as palavras como sua presença tem sido importante pra mim. Tão atento e ao mesmo tempo, longe, confunde meus pensamentos a cada beijo.

Hoje você ligou. Perguntou como andavam as coisas, se eu estava bem, e se o trabalho ainda me consumia todo o tempo como de costume. Eu, do outro lado da linha, fingia responder com indiferença, mas já idealizava qual peça sairia do guarda roupa para ir ao seu encontro, a noite. Você ainda não havia sequer falado no assunto, pra todos os efeitos, essa era apenas uma ligação “para saber se você está bem”. Mas há tempos já me acostumei com essa nossa rotina, essa nossa dinâmica confusa. Aprendi que no fim das contas, nosso jantar acaba virando um café da manhã.


Você chegaria as 19h15, com os já de praxe minutinhos de atraso, e eu nem me preocupei em apressar a maquiagem. Mais uma vez, um jantar, e com ele, aquela serie de situações que me fazem sentir tão confortável e segura como mulher. Ainda no telefone, diz sentir minha falta. Eu trato de me demorar um pouco mais na escolha do sapato.

Olho atenta, como sempre, esperando seu carro dobrar a esquina. Quando chega, você desce e dá a volta para apenas abrir a porta para mim. Um suspiro de alívio e uma poesia sobre cavalherismo me tomam os pensamentos por segundos. O tempo passa, mas ainda somos os mesmos. “Somos quem podemos ser”, já dizia Humberto Gessinger em uma de suas bossas,que pra mim demorou um bocado pra fazer sentido. Chegamos ao restaurante, você pega a minha mão e toma minha frente, como se dissesse que te pertenço. Me protege do frio enquanto não achamos a mesa, e deixa o que vamos comer a minha escolha – “só dessa vez” – fez questão de falar.

Mais uma vez estou parada olhando nos teus olhos e pensando no que posso te dizer. Você está alí, sentado a mesa se prestando aos meus poucos caprichos. Por mais uma noite, você é meu. E as atitudes, um artifício para chegarmos juntos mais uma vez a hora do café.


Os gostos, quase todos acatados. Presentes, surpresas… Eu preciso suplicar para que não me conquiste? A sensação é de que em meios aos caminhos que o destino nos traça, uma hora, nos perderemos. E você deixará de ser meu, mesmo que por esporádicos jantares.

Não me conquiste ainda mais. Que tal continuarmos fingindo que nos consideramos apenas coadjuvantes, um na vida do outro, procurando motivos para não mostrar o que de fato, sabemos que acontece.

Peço, encarecidamente que não mais me conquiste, para não me apaixonar ainda mais, mas sim para continuar negando tudo que eu já consigo identificar sentir por você. Mais uma vez eu estou parada olhando nos teus olhos e pensando no que te dizer. Opto pelo silêncio. Não será dessa vez que vou me arriscar. Opto pelo garantido café.

Decidi que preciso me decidir.

28 ago

Quando você toma uma decisão na vida, ela tem que ser pra valer. Casar, comprar uma bicicleta, assoviar ou chupar Cana. Tem que decidir se ‘trepa ou sai de cima’. Que seja ela apenas uma desativação de assinatura de facebook – ela tem que ser tomada com firmeza.

Há pessoas que aparecem em nossas vidas com um único propósito, o de nos fazer aprender uma lição. Aprendemos sobre os homens, mais novos e mais velhos. Que nós amadurecemos antes deles, e que eles tem um dom de machucar sem perceber que raramente notamos. Sim, muitas vezes eles não percebem. Aprendemos que não devemos colocar expectativas sobre um relacionamento que possivelmente, ou CLARAMENTE não tem futuro – ou, como quase sempre, não é ainda um relacionamento.

Tomar a decisão de tirar alguem assim da sua vida é difícil. Lembre-se dos amores de adolescencia, sempre tinha uma amiga pra te aconselhar, algo do tipo, “você esquece ele se você quiser!”. E a gente se debulhava ainda mais em lágrimas. Mas chegou o ponto em que percebi que esquecer, que tomar essa decisão, é uma opção.

Você decide quem coloca na sua vida, da mesma forma que decide quem sai dela. A opção por sair com alguém ou dizer não a ela é unica e exclusivamente sua. Você coloca tudo na balança. Por mais irresistível que ela possa ser.

Então hoje, eu decidi comprar minha bicicleta, assoviar, e desativar todas essas velhas assinaturas no Facebook. A escolha de saber ou não o que acontece na sua vida é minha, e eu decidi que não.  Levanta, põe o sapato e o vestido. Ser livre foi apenas mais uma decisão que tive que tomar.