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Ódio criativo

16 mar

Para ler ouvindo:

Me dizem que sou jovem. Muito jovem. Jovem para escolher, esmoecer, desistir. Dizem que eu sou jovem demais para odiar. Eu poderia muito bem entrar nesse modo ‘bukowskiano’ de vida onde apenas viveria, me enchendo sempre de pessoas e de cerveja, ou na maioria das vezes só cerveja. Ponderei. Achei melhor não.

Eu gosto de odiar, alivia minhas inquietações. Traz outras centenas, mas quem liga? Hoje escrevo mais solta, talvez eu deva isso a todas elas. O ódio me faz relacionar músicas a você. Me faz reler as cartas e as dedicatórias das fotos. Abrir e-mails antigos e desinterrar os presentes do fundo daquela caixa de sapatos, que guardei embaixo da minha cama, e pensar em um fim dramático e doloroso para cada um deles. E para o dono deles também – não se engane.

Meu ódio é amor subvertido. É criativo, destrutivo, corajoso, mas fugaz. Permanente e passageiro, consegue compreender? Não? Nem eu. Te odiar significa desejar que você caia do 10.º andar do seu prédio. E torcer para que eu esteja lá, milagrosamente, de braços abertos para te amparar. Meu ódio beira o ridículo, mas afinal, qual amor não é?

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Só por hoje.

17 set

– Uma dose daquele tinto. Do mais vagabundo, por favor – Eu pedi.

Ele seguiu minha ‘ordem’, como todo bom garçom que se preze. Enquanto me servia o vinho, me viu, em um lampejo, mudar de ideia.

– Me traz uma dose de Jack. Isso, sem cara de susto. Uma dose bem servida de Jack Daniels, com duas pedras de gelo. Melhor, sem gelo algum. Uma dose pura.

jack-danielsE ele o fez, assim como da primeira vez. Peguei o copo, e tomei toda a minha primeira dose de uma vez só. A essa hora, tudo se confundia no meu rosto, pálido. Nele, apenas a cor do malte escocês diferenciava as lágrimas do que eu tinha deixado escapar do gole. Talvez fosse até possível confundi-los.

Eu queria – e precisava, mais do que qualquer coisa, que aquilo, aquela dor, fosse embora. E só as últimas gotas do uísque que sobraram dentro do copo presenciavam tamanha inquietação, resultado de uma relação intermitente que chegou ao fim. E era só o que restava, naquele momento.

O vazio. Aquele vazio em particular, o vazio do banco ao lado. O vazio que você deixou. Talvez mais doses preenchessem a minha madrugada melhor que os seus suspiros. Talvez a disponibilidade do garçom em me atender me fizesse lembrar justamente o contrário, como a falta de tempo que tínhamos.

Mais um, dois, três copos e cigarros. Ainda choro. Sei que nada vai mudar. Ou talvez sim, quem sabe. ‘O futuro a Deus pertence’, você dizia, enquanto afagava o meu cabelo, em um dos nossos domingos.

Pedi tanto para que não se apaixonasse, e quem caiu na sua armadilha fui eu. Implorei. Em uma das brigas me dei conta. Queria mais. Queria saber o que significávamos. Hoje, passado tanto tempo, bebo uísques sozinha em um bar qualquer da Avenida Paulista. Ainda faz frio em São Paulo. Mas dessa vez quem me fita com olhos de incompreensão é o pobre garçom.

bar-cigarro

– Moça… Desculpa… Mas vamos – seu olhar de súplica me dizia ‘precisamos’ – lavar o bar. A senhora vai ficar… Hum… Aí?

Eu permaneci inerte.

– Vocês não fecham nunca, posso ficar? Preciso ficar.

Ele consentiu, e despejou o balde d’água no chão, sem disfarçar sua desconfiança. Eu e o bar. Eu, o bar e alguns garçons. Quatro horas da manhã de uma madrugada de quinta. Céus! Que diabos eu estou fazendo aqui enquanto a vida corre lá fora? Solucei. Pela última vez.

Chega. Bebi meu último gole quando já havia perdido as contas dos copos. Se a intenção era ‘beber o defunto’, como meus avós faziam no interior quando alguém morria de verdade, eu já tinha bebido o cemitério inteiro. E o meu defunto estava vivo, dormindo em uma cama estranha em algum lugar dessa cidade.

Peguei minha bolsa e levantei do balcão. ‘Amanhã eu passo para acertar’, avisei. Era a hora do basta, do ponto final. Saí do bar e caí no mundo. Eu simplesmente não podia sentar e observar a vida passar.

Vou me tratar. Assim como se faz com toda dependência sabe? Vivendo um dia de cada vez. Podendo dizer ‘só por hoje’. Só por hoje eu não pensei em você.

Não me conquiste, é melhor assim

4 set

Mais uma vez eu estou parada olhando nos teus olhos e pensando no que posso te dizer. Esse é o momento que, em tese, eu deveria te apontar com as palavras como sua presença tem sido importante pra mim. Tão atento e ao mesmo tempo, longe, confunde meus pensamentos a cada beijo.

Hoje você ligou. Perguntou como andavam as coisas, se eu estava bem, e se o trabalho ainda me consumia todo o tempo como de costume. Eu, do outro lado da linha, fingia responder com indiferença, mas já idealizava qual peça sairia do guarda roupa para ir ao seu encontro, a noite. Você ainda não havia sequer falado no assunto, pra todos os efeitos, essa era apenas uma ligação “para saber se você está bem”. Mas há tempos já me acostumei com essa nossa rotina, essa nossa dinâmica confusa. Aprendi que no fim das contas, nosso jantar acaba virando um café da manhã.


Você chegaria as 19h15, com os já de praxe minutinhos de atraso, e eu nem me preocupei em apressar a maquiagem. Mais uma vez, um jantar, e com ele, aquela serie de situações que me fazem sentir tão confortável e segura como mulher. Ainda no telefone, diz sentir minha falta. Eu trato de me demorar um pouco mais na escolha do sapato.

Olho atenta, como sempre, esperando seu carro dobrar a esquina. Quando chega, você desce e dá a volta para apenas abrir a porta para mim. Um suspiro de alívio e uma poesia sobre cavalherismo me tomam os pensamentos por segundos. O tempo passa, mas ainda somos os mesmos. “Somos quem podemos ser”, já dizia Humberto Gessinger em uma de suas bossas,que pra mim demorou um bocado pra fazer sentido. Chegamos ao restaurante, você pega a minha mão e toma minha frente, como se dissesse que te pertenço. Me protege do frio enquanto não achamos a mesa, e deixa o que vamos comer a minha escolha – “só dessa vez” – fez questão de falar.

Mais uma vez estou parada olhando nos teus olhos e pensando no que posso te dizer. Você está alí, sentado a mesa se prestando aos meus poucos caprichos. Por mais uma noite, você é meu. E as atitudes, um artifício para chegarmos juntos mais uma vez a hora do café.


Os gostos, quase todos acatados. Presentes, surpresas… Eu preciso suplicar para que não me conquiste? A sensação é de que em meios aos caminhos que o destino nos traça, uma hora, nos perderemos. E você deixará de ser meu, mesmo que por esporádicos jantares.

Não me conquiste ainda mais. Que tal continuarmos fingindo que nos consideramos apenas coadjuvantes, um na vida do outro, procurando motivos para não mostrar o que de fato, sabemos que acontece.

Peço, encarecidamente que não mais me conquiste, para não me apaixonar ainda mais, mas sim para continuar negando tudo que eu já consigo identificar sentir por você. Mais uma vez eu estou parada olhando nos teus olhos e pensando no que te dizer. Opto pelo silêncio. Não será dessa vez que vou me arriscar. Opto pelo garantido café.